segunda-feira, 11 de julho de 2016

CHAPÉU DE COURO NORDESTINO – IDENTIDADE DE UMA REGIÃO

Autor – Rostand Medeiros

Barro – Ceará/Foto: Rostand Medeiros/2015
Este é um artefato que funciona como verdadeiro distintivo do Nordeste e do nordestino. Creio que talvez não exista um material com um aspecto tão forte em termos de identidade, tão representativo do nosso sertão do que o belo e tradicional chapéu de couro [...]

A pecuária, a criação de gado no interior da atual Região do Nordeste do Brasil foi o primeiro grande fator de geração de renda e permanência do homem nesta região árida. Da atividade de criar o gado se obtinha a carne para alimentação, o leite e em seguida o couro, que era utilizado de diversas maneiras nas propriedades rurais. Em algumas fazendas se desenvolveram rústicos curtumes, que serviram para transformar o couro em mais um meio de geração de renda. Certamente foi nestes locais que se iniciou a tradição da manufatura dos chapéus de couro.

Este tradicional artefato nordestino inicialmente serviu basicamente para fins práticos, principalmente como parte da indumentária de proteção dos vaqueiros [...]

Apesar desta questão, o bom e velho chapéu de couro está firme e forte na cabeça daqueles nordestinos que valorizam a cultura tradicional de sua terra. Até mesmo como símbolo de resistência cultural. E a melhor notícia é que a produção destes belos artefatos está tendo continuidade [...]

- Leia aquio texto na íntegra, na página do historiador e pesquisador Rostand Medeiros.

Os chapéus de meus avós de Caicó

Nesta oportunidade, resgato a história de meus avós maternos Severino e Luzia que passaram toda a vida produzindo chapéus de couro, inicialmente ainda jovens e solteiros na cidade paraibana de São Mamede e já casados foram convidados por um primo para morar em Caicó, por ser uma cidade maior e não existir quem trabalhasse, corriqueiramente, nesse oficio, apenas esse primo que posteriormente se transferiu para Currais Novos. Ou seja, Severino e Luzia Tavares foram, praticamente, os pioneiros na fabricação de chapéu de couro em Caicó, desde o ano de 1932, aonde criaram e educaram seus quatro filhos. Minha avó sempre dizia que aos dez anos de idade começou a costurar chapéu, trabalho que fez com dignidade até se aposentar no final da década de 1960, já viúva, porém vinha mantendo a oficina em sua casa da Rua Augusto Monteiro, centro de Caicó.
  
©2016 www.AssessoRN.com | Jornalista Bosco Araújo - Twitter@AssessoRN

domingo, 9 de agosto de 2015

O Beijaço dos Setentões

 

Publicação: 2015-07-07 00:00:00 | Comentários: 0
Tribuna do Norte - Natal
Marcius Cortez
publicitário e escritor

Villa-Lobos, fazendo careta no espelho dizia: “devo estar ficando velho porque já não me vaiam como na Semana de 22 em Sum Paulo”. O nosso músico maior, por certo, andava pensando em criar uma trilha sonora para a adolescência que costuma chegar junto com a idade de setenta anos. Foi o que pensei olhando para as pessoas com os quais eu dividia a festa de aniversário da minha prima Vanda, ali naquele salão de recepções da Avenida Antoine Saint-Exupéry, em Natal. Afastei desde logo se as pessoas eram feias ou bonitas, ricas ou pobres, bem conservadas ou envelhecidas, pretas ou brancas, gordas ou magras, reacionárias ou revolucionárias, religiosas ou ateias, cabeludas ou carecas, normais ou “doidinhas”, modernamente digitais ou primitivamente dinossauros. Eu me encontrava no meio de uma floresta chamada confraternização e foi ficando cada vez melhor a sensação que eu fazia parte de um grande cordão onde cabia tudo.

A entrada pertence a todos. Era o que parecia transmitir a nova setentona em seu vestido azul Klein personificando, em grande estilo, a “elegância discreta das coisas belas”. Vanda Cortez compartilhava sua vida nas fotos de seu álbum de família projetadas na parede. Em algumas das imagens, destacava-se a presença da mãe Anita Andrade e do pai João Alfredo Pegado Cortez, conhecido em toda Natal como o Conde de Miramonte, o dono do castelo branco do bairro do Tirol. Turbilhão de emoções era a nuvem que pairava sobre os convidados. Nossa, como se conversou! Uma hora, no auge da excitação, eu me pus a falar de tia Julinha a me dizer lá em Eindhoven, cidade holandesa, perto de Amsterdam: “meu sobrinho, hoje eu vou lhe apresentar o típico domingo da família neerlandesa” e me levou para uma sauna em um clube elegante. Distintas senhoras, circunspectos senhores, gente idosa e crianças, muitas crianças circulavam por aqueles cômodos espaçosos e brancos. Titia e eu entramos no bar. Sofás e poltronas confortáveis, luz boa para leitura, temperatura ideal, alguns liam enquanto bebericavam, outros batiam papo enquanto também bebericavam. Detalhe importante: todo mundo estava pelado, eu envergava o meu estiloso traje pai-Adão enquanto Júlia Cortez mostrava-se impecável, desfilando sua porção Eva sem a folha de parreira. Incrédulo, meu primo Ezequias ria ainda duvidando, mas meu outro primo, Felipe Henrique confirmou que a mãe também o apresentara ao domingo da família holandesa.

Lá para tantas, a aniversariante, ao microfone, disse palavras comovidas aos amigos e parentes. Outras pessoas também falaram. Minha irmã Dra. Cristina Cortez Fittipaldi declarou que Vanda é simples, mas não é simplória. Lembrei-me de alguns mestres do colunismo social potiguar, entre eles, Jota Epifânio, Paulo Macedo, o pioneiro Gil Brás que graças ao seu “tempo de festas” logo perceberiam que o aniversário de Vanda Augusta seguia a fluência da água de um córrego alegre. Serena, Ieda Pessoa, que foi casada com meu tio Alfredo, sublinhava a sintonia do encontro com o romântico olhar de poeta de 92 anos.

Para completar, ontem sonhei que na próxima encarnação, terei o prazer de reviver a festa da Vandinha. No sonho, com todo o respeito e no clima dominical da família holandesa, todos os convidados se abraçariam num afetuoso beijaço. De bocas apaixonadas, de mãos dadas, do mesmo jeito que os jovens do nosso país estão fazendo hoje. Nos clubes, nas ruas, nos corredores das escolas, nos shoppings, nos cinemas, nas praças, a juventude nos brinda com a conquista mais civilizada do Brasil atual: homens, mulheres, mulheres, homens se beijam a toda hora. Gloriosamente, o amor deixou de ser visto como ameaça.

(Esta crônica é dedicada ao cartunista Laerte Coutinho).

Meus tetravós mataram o Presidente Parrudo

Publicação: 2015-04-05 00:00:00 | Comentários: 0
Marcius Cortez Escritor

O Coronel Estevam José Barbosa de Moura e sua mulher, Maria Rosa, tinham o poder de tocar numa coisa e essa coisa imediatamente virava ouro. No Rio Grande do Norte daquela época não tinha ninguém mais rico do que meus tetravós. Porém quis o destino que um imprevisto desabasse sobre a vida deles como uma terrível tempestade.

A loja Maçônica “Sigilo Natalense” incumbira meu tetravô de dar um cartão amarelo para o Presidente do Rio Grande do Norte, o baiano Manoel da Silva Lisboa, mais conhecido como Parrudo. E foi aí que a porca torceu o rabo porque Parrudo não aceitou a advertência. Fazendo jus ao nome, ele esbofeteou, xingou, humilhou, fez gato e sapato com a honra do trisavô da minha mãe. Porém o que Parrudo não sabia é que o fracote Coronel Estevam era casado com uma senhora da mais fina e sanguinária aristocracia rural nordestina. Para começo de conversa, Maria Rosa tratou de exilar o marido no Ceará, “olhe fica lá e deixa comigo”.

Numa bela tarde de abril, precisamente em 11 de abril de 1838, Parrudo balançava-se na rede com uma de suas Lolitas quando João Alves lhe apresenta o passaporte para a morte, descarregando no peito da vítima todo o chumbo do bacamarte. Os capangas que acompanhavam o pistoleiro fincaram ainda duas peixeiras no corpo de Parrudo. Em 1941, Câmara Cascudo e Eloi de Souza, escrevendo sobre o assunto na Revista do Instituto Histórico do RN, atentaram para um detalhe sórdido: um dos capangas decepou o dedo de Parrudo, onde havia um anel de brilhante.

Gente rica é outra coisa. Ninguém foi preso. O crime, como observou o escritor Ticiano Duarte em crônica publicada nessa Tribuna, “Ficou impune. Já se passaram 176 anos”. Ticiano, arguto, transcreve um comentário do nosso Cascudo: “jamais a verdade sairá do poço”.

Eu, como descendente dessa nobre dupla, prometi a mim mesmo que a primeira coisa que direi a vovô Estevam e a vovó Maria Rosa quando encontrar com eles no inferno é que honra não se lava com sangue, se lava é com tutano. Mandar o opositor para a terra dos pés juntos é extrema burrice, coisa sem imaginação, atrasada, improdutiva. O opositor deve ser a nossa referência para sermos melhores do que ele. Quem não tem competência não se estabelece, ainda é a mais inteligente verdade desse negócio matreiro, corrupto e complicado que é a política. O resto, como se costuma dizer, é o luar de Paquetá.

Lembro bem da minha bisavó, neta do casal assassino. O nome dela é o mais descarado sinal da arrogância de uma mentalidade ainda presente entre nós. Minha bisavó se chamava Maria Rosa, filha de Maria Rosa Moreira Castelo Branco, por sua vez filha de outra Maria Rosa. O crime cometido por Estevam e Maria Rosa Moura foi como se não tivesse existido. Crime escondido com rara eficiência. Mamãe, por exemplo, desconhecia a existência do assassinato do Presidente Parrudo. Da minha parte, asseguro que não terei dó nem piedade do desespero e da horrenda loucura que contaminou meus tetravós. No inferno, eles passam o tempo todo lavando as mãos, dia e noite, anos, séculos a fio, eternidade infinita. Lavando as mãos que permanecem sujas de sangue e exalam um cheiro pior do que o enxofre dos demônios.